Dedos e dores


Hoje prendi o dedo na porta do carro: eu tranquei e nao podia puxar, pq senao arrancava o dedo. Imagina este ser com a boca aberta sem sair som algum e abrindo a porta na maior “calma” para depois gritar de forma contida (afinal, eram 6 da manhã) e chacoalhar o dedo igual um maluco.

Pois é… comecei bem o dia, na verdade, foi pior que isso, mas deixa pra lá. O que importa é que acabei recebendo, coincidentemente, um texto de Martha Medeiros que começa exatamente assim: “Trancar o dedo numa porta dói.”

Vamos ao texto?


A DOR QUE DÓI MAIS

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu. Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.

Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.

Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.
Martha Medeiros

Fonte: http://www.pensador.info/autor/Martha_Medeiros/

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5 comentários sobre “Dedos e dores

  1. Pingback: Sergio Luis via Rec6

  2. Grande texto! Mais verdade impossível.

  3. Que o diga meu dolorido dedo indicador…
    heheheheh…

  4. Em meu retorno ao seu blog, me deparei com um texto simplismente perfeito além de verdadeiro!!!

    Não sei definir qual dor dói mais….para mim depende da situação…do momento…afinal…todas as dorem têm sua intensidade e porque não dizer, seu devido valor….

    mas posso afirmar que, no momento…a que sinto, dói mais.

    Bjs!

    E parabéns por mais um belo texto!!! 🙂
    Continuarei na minha busca pelos demais que vc escreveu… 😉

  5. Esse foi indicação de uma amiga muito especial do RS…

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