Diário de Viagem 2009 – Inferno na Torre


O último dia na Cidade Eterna foi certamente o mais puxado. 2009-07-09 - Itália (12)Desde as 10 da manhã, fiz o Vaticano e fui voltando até o final da rota que planejei (só faltou o Panteão entre os pontos principais) até a Piazza de Brasile, uma subida de 15 minutos, com mochila nas costas, sob sol forte e depois de ter caminhado por aproximadamente 4 horas, sem parar nem pra comer.

2009-07-09 - Itália (67)Estava exausto, mas não terminei o dia. Voltei para o albergue para pegar minha mala e, então, para o terminal. Apesar de ter visitado quase todos os pontos principais, comecei a sentir falta de algo. Ainda não fazia idéia do que.

De Roma (belíssima) peguei um trem para Pisa no fim da tarde (lembram do meu intento de passar o aniversário em frente à famosa torre?) – dá uma olhada na imagem ao lado. Tirei de dentro do trem. Viajar no trem ultra rápido é muito legal, confortável, mas descobri uma desvantagem que me deixaria em apuros: a conexão internet do celular caía a cada 2 ou 3 minutos. Problema? Não seria, mas devo explicar antes. No primeiro dia em Roma, dei um jeito de comprar um chip de dados da Wind. 10 minutos de espera depois, fui atendido. O vendedor informou que ao final daquela tarde eu já poderia acessar – grande mentira que só fui descobrir no dia seguinte quando uma vendedora de outra loja do grupo me informou que a habilitação não fora feita e que o cara da outro loja era um enrolador.

2009-07-09 - Itália (68)A 50 cents a hora, eu tinha 18 horas de crédito. Mais que o suficiente para reservar os hotéis, albergues e planejar o resto da viagem. Em um modelo por hora (diferente do Brasil, onde pago por tráfego), o sistema otimizado de acesso que tenho do meu celular foi uma catástrofe. O modelo italiano conta o tempo com um mínimo de 15 minutos em cada conexão. Para economizar banda, porém, meu aparelho não deixa a conexão ativa direto, mas apenas o tempo necessário para a transmissão.  Junte a isso um trem a 200 km/h perdendo sinal toda hora: fiquei online por cerca de 20 minutos que só foram suficientes para ver dois albergues na lista.

Numa operação de guerra, a Deby e a Nanda – lá do Brasil – conseguiram reservar um B&B a 70 metros da torre de Pisa. Realmente fantástico. Ou seria, pois aqui começam mais apuros – o maior até agora.

Cheguei na rodoviária bem tarde e com o endereço e número de confirmação na mão – ou na caixa de mensagens do meu celular – pedi informações e comecei a caminhada até o local. No caminho, com uma mochila, notei um pequeno  grupo que caminhava e falava inglês logo à minha frente. Algumas esquinas em comum depois, imaginei que fossem viajantes como eu e, quem sabe, não estivessem indo para o mesmo albergue.

Não eram. Andrea e Daniele são um casal de italianos muito simpáticos, enquanto Elizabeth é uma chinesa que mora em Pisa. Todos estudantes lá: Elizabeth faz o pós-doc e Andrea o doutorado, ambos do robótica. Foi então que descobri algo sobre Pisa: além da enorme quantidade de turistas que a cidade recebe por conta da torre, Pisa é um importante centro universitário na Itália. Tão importante que não me recordo de passar por uma rua que não tivesse, no mínimo, uma livraria. Faculdades as mais variadas – letras, biologia, física, antropologia e outras – se espalham pelas velhas ruas da cidade: é a herança viva de um dos grandes gênios, Galileu Galilei.

2009-07-09 - Itália (103)Apesar de não serem viajantes como eu, os três se dispuseram a me mostrar o caminho até meu destino e caminhamos até uma ponte que parece ter sido eleita pelos estudantes locais em férias como o point da noite. Centenas se reúnem ao longo da ponte, da praça em frente e da avenida ao longo do rio. Estou cada vez mais encantado pela pequena cidade. Descobri isso: apesar de ser um cara mais sossegado, gosto de cidades vivas, pulsantes. Isso explica parte do meu amor por minha cidade natal.

Cheguei, subi e descobri que o cara do albergue fizera overbook. É uma prática condenável que já foi muito utilizada 2009-07-09 - Itália (80)pelas companhias aéreas em épocas de vacas gordas. Há sempre um índice de desistências de última hora nesses serviços de reserva. A fim de garantir lotação total, algumas empresas – de qualidade moral questionável – aceitam reservas além de rua capacidade de operação para, retirando os desistentes, operar no limite. Muitas vezes funciona, mas é um verdadeiro risco para os clientes que, mesmo com reserva, podem ficar sem o serviço. Se não me engano, no Brasil isso foi proibido há algum tempo. Aqui ainda fazem. E fizeram comigo. Sozinho, as 23:00 em uma cidade estranha, um país estranho, com uma mala na mão e sem lugar para ficar. Há algumas horas do meu aniversário, eu só queria conseguir chorar. Não conseguia. Notei minha exaustão por sinais que estavam despercebidos: não comia há 12 horas, tinha bolhas nos pés, meus calcanhares estavam esfolados, mal conseguia puxar a mala. Nem mesmo conseguia chorar.

E tudo isso era secundário agora: que vou fazer?

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15 comentários sobre “Diário de Viagem 2009 – Inferno na Torre

  1. E aí???????? O que vc fez? Conta logo!! rs

  2. Bom, vivo a gente sabe q ce tá, senão não teria respondido o comentário hausheua

  3. aliás, como vc descobriu todas aquelas informações dos estudantes que vc seguiu?

    • É que sou vidente… aí descobri. Hehehe… O albergue era beeeeeem longe da estação. Foi uma boa caminhada. Deu pra saber que eles tem uma amiga brasileira, mas nunca foram pro Brasil. E que nas férias a cidade ferve a noite com jovens de diversas partes da Itália que estudam lá.

  4. Conta ai o que você fez depois, como resolveu? Mas se está mantendo o mistério e brincando até, deve ter encontrado algum lugar confortável pra deitar e enxugar as lágrimas. Posso dire felice compleanno?

  5. Que bom, agora você vai ver como tudo isso serviu pra experiência e como você cresceu com tudo isso. Apesar de não ter comparação, quando fui morar em Manaus eu também me senti totalmente perdida, apesar de estar com o papai e com você (1 ano e 8 meses) e seu irmão (5 meses), estava num lugar estranho, muito calor (pra quem me conhece sabe que prefiro o tempo mais frio) num hotelzinho xumbregua no centro da Zona Franca (horrível) com pessoas te olhando super desconfiadas, nossa me sentia fora do Brasil, e hoje reconheço, aquilo foi um treinamento, rsrsrsrsrsr
    Sofri muito, mas cresci também.
    Infelizmente as vezes temos que passar por algumas situações pra valorizarmos mais outras, né?

  6. Poxa, sua mae falou tudo!!
    Sou um exemplo disso…lugar novo, vida nova, amigos novos e ate familia nova, na verdade um segunda familia…não é fácil…Agora vc entende minhas crises??
    =P

  7. Pingback: Diário de Viagem – Anjos e Demônios « Na Toca da Cobra

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