La Revolución


A verdadeira revolução é silenciosa. É a revolução do espírito.


Sou um revolucionário. Me considero um. Não como os bons e velhos revolucionários – certamente mais velhos do que bons -, mas um revolucionário de espírito, mais do que de “ação”. Acredito na revolução pelas armas como forma de mudar algo, mas não acredito que a revolução pelas armas mude algo de fato. Como diria o escritor político italiano Tomasi de Lampedusa, “é preciso que tudo mude para que se mantenha como está”. Para quem já leu Maquiavel, o injustiçado e também italiano, é fácil compreender isso: Derrubar um governo por armas é mais fácil. Mantê-lo é mais difícil. Acho os velhos – e não tão bons – revolucionários um tanto míticos demais, bonzinhos demais, falsos demais. A

Personagem ou mito? Depende para quem pergunta

coisa me cheira muito mais a disputa de poder do que revolução. A verdadeira revolução é silenciosa. É a revolução do espírito.

Tenho uma terrível tendência a não me conformar, a não aceitar as coisas facilmente: sejam pensamentos, moldes ou padrões. Tendo a questionar e realmente acho isso uma virtude. O questionamento refina e fortalece as boas idéias. Ele consolida a fé. Mas para as idéias frouxas, o questionamento é letal: ele as expõem em sua vergonha e falta de profundidade, diferencia os papagaios dos pensadores, daqueles que se debruçam a esmiuçar uma idéia, um conceito até, ao final, descobri-lo apto a sobreviver ou apenas a repetir mantras pré-fabricados por outros papagaios. E é por isso que me considero revolucionário: ninguém gosta de questionamentos. Ou quase ninguém. Mas é justamente o questionamento, o confronto de idéias que separa uns de outros. Joio e trigo.

E o que tem a revolução na história? Bem, a revolução em que acredito é a silenciosa, que muda o espírito, a forma de viver. Não é um ou outro governo quem o fará, é o indivíduo. Esperar que um governo faça tudo não me parece sensato, me parece cômodo. E não é o comodismo que move o mundo, mas o incômodo, a necessidade humana de não ficar parada. A escada existe por conta do incômodo das escaladas em pedras. Os livros, pelo incômodo custo das aulas oratórias. A televisão pelo incômodo de pegar o carro e ir ao cinema. A pipoca do cinema… bem, isso é um incômodo inexplicavelmente agradável. Não para quem está ao lado.

O inconformismo nos leva a buscar novas maneiras de fazer algo de forma melhor, mais rápida, mais barata. Esperar que outro o faça – seja o governo, seja seu pai – é traçar um objetivo, levantar velas e deixa-las seguir ao sabor do vento, esperando que este te leve onde quer chegar. Nem Cabral acreditava nisso: é preciso agir!

Qualquer revolucionário que não questione a si mesmo antes de tudo, para mim, é só massa.

E massa serve para ser amassada e cozida… e comida! As massas são o alimento dos tiranos.

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34 comentários sobre “La Revolución

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  2. Belo texto Sérgio …
    Assim também podemos, ou posso, dizer, que és um revolucionário em sala de aula, onde procura questionar os alunos, e, para aqueles que realmente entendem alguma coisa sobre “revolução” (não propriamente esta), incita o aprendizado e a busca por um resultado além do esperado.

    Luiz

  3. A inquietude move o mundo. Más uma revolução do espirito pode ser consolidada por uma de armas. Não duvide que revoluções com armas dão certo, basta preparar bem o terreno: criar espírito no povo com suas idéias e letargia nos opositores.
    Daí a ser ‘do bem ou do mal’ é outra coisa. A crítica e a inquietude é que impedem ‘o mal’ que não aceita essas 2 atitudes. Por isso revoluções do mal sempre começam por destruir esse espírito no povo, seja pela educação, pela mídia, seja desiludindo as crenças, tornando tudo relativo e o pior, é quando anestesiam o povo – toda resistência amolece e tudo é aceito. Depois a força é para limpar de vez o terreno.Lenin defendia que a revolução marxista só vingaria com a ‘aniquilação física’ da burguesia.
    Mantenha a inquietude sempre. Mas saiba que isso vai exigir heroísmo de alma e que um dia quererão nos aniquilar.

    • Obrigado pelas palavras, Marcelo!

      Mesmo no caso em que citou, uma revolução “do mal”, há que se amolecer o terreno antes, quebrar o espírito. E, novamente, caímos na revolução do espírito da qual falei (e que você bem lembrou: pode ser boa ou má).

      Os principais problemas das revoluções armadas, a meu ver, são dois. O primeiro, como diria Maquiavel, é o fato de um povo que se levanta com armas uma vez, pode se levantar duas. A manutenção dessa revolução requer controle tão rígido que, na verdade, fortalece o espírito dos inconformados e quebra a tal da massa. O resultado: uma nova revolução.

      O segundo problema é baseado em Newton: para toda ação há uma reação de igual intensidade. A revolução armada tende a gerar um “derrotado”. E ninguém – ou quase ninguém – gosta dessa posição. Lembre-se da Alemanha derrotada da 1ª Grande Guerra ou do intenso desejo de vingança do Irã contra os EUA por conta da guerra Irã-Iraque.

  4. Muito legal seu texto, falou bem ao dizer que a transformação não acontece por um passe de mágica, exige muito esforço, mas faltou dizer que este esforço vai além da mudança do “eu”, ele deve fazer, ou ao menos oportunizar, o “outro” a lutar por sua liberdade, a refletir sobre sua condição, sobre o comodismo que impera.

    Os Heróis atuais não são bem heróis, são mitos modernos, os antigos estão mortos e não podem agir, onde estão as lideranças da atualidade? em meio a ditadura do pensamento monocromático onde ou se é extremamente individualista, egóico e oportunista ou se é a personificação da demagogia, defendendo a bandeira da moda, e acima de tudo destruindo com atos o que a boca professou.

    Tempos Difíceis.

    • Não sei, João… acho que ninguém muda o outro. Aliás, não acredito em mudança que não seja pessoal: ninguém muda pelo outro. Só se muda quando realmente se acredita que aquilo é o melhor para si mesmo. Assim, a revolução continua silenciosa e pessoal.

  5. Quem dera se os jovens tivessem a virtude de não se conformar, e não aceitar as coisas facilmente: sejam pensamentos, moldes ou padrões. Que usassem o próprio discernimento para chegar à suas próprias opiniões, através da inteligência e da observação.

  6. A voz da mudança, muitos a entenderão como ameaça.

    Preferirão comportar-se como peixes satisfeitos com o universo em que vivem — um lago que a estiagem pode, literalmente, evaporar.

    E sempre haverá estiares…

    Deixarás o lago, descobrirás o riacho, o rio, o mar; retornarás, contando as aventuras de todo um planeta, o quão diminuto o lago de origem é.

    E não te darão ouvidos…

    Se, ainda assim, estás disposto ao crescimento e à descoberta, ao sonho e à esperança; se, ciente de quanto sofrimento e solidão tal aprendizado te há de custar, tu te manténs no rumo… eu te digo com certeza: a humanidade terá ganhado mais um filho.

  7. É meu caro Sérgio, mas nós não somos uma sociedade de Deuses, uma dica, orientação, e principalmente exemplo são úteis para se decidir o caminho ou a forma de caminhar.

  8. Gostei do texto, é ousado, mas releva o fato de que o ser humano reage diferente quando retratado individulamente e quando no coletivo, alguns questionamentos:

    Será que isto se aplica a todas as pessoas, pertencentes à todas as classes sócio-políticas?

    Qual o papel do Educador ou do Líder natural nesta perspectiva?

    Quais seriam os grandes entraves para este desenvolvimento humano baseado na individualidade? se existem, as soluções sõ todas em âmbito individual ou envolvem soluções coletivas? dependem de fatores externos à individualidade?

    É, gostei da reflexão, mas concordo com o João Augusto quando ele diz(via twitter) que existe um equilíbrio entre o relativismo e o positivismo, o pensamento deve ser livre mas deverá ter um norte para que o caminhante não se perca na caminhada.

    • Olá, Eduardo. De fato, há questionamentos (ufa! isso aponta que não deixei e não pretendo deixar uma condição humana). No tocante às “classes”, penso haver uma coisa chamada “comportamento de bando”. O homem “honesto” de Curitiba pode invadir o campo e atacar policiais se todos assim o fizerem. Mas, a meu ver, isso não é categoria de pensamento, mas de ação. O mesmo “homem honesto” volta pra casa pensando “Que m**** eu fiz?!?!”

      Isso acontece porque – e aí vai da crença pessoal – acredito que a mudança é de fora para dentro e é silenciosa. O que faz a manada estourar é diferente do que faz o indivíduo estourar. Ele é culpado pelo que fez enquanto massa? Sim! Ele mudou como ser humano? Não sei. Só o tempo dirá.

      Quanto ao papel do educador, penso ser diferente do lider. O educador – e falo daqueles que acreditam na educação como algo que melhora o indivíduo, não a massa – não deveria sequer ser chamado educador, mas mestre. Não pela pompa, mas pela função. Educar é papel dos pais. Mestres, porém, são aqueles que apontam caminhos, que até caminham alguns passos juntos, mas que sabem que as escolhas são individuais, de forma que não há “vontade da maioria”, não há imposições, há apenas escolhas pessoais.

      No caso do líder, esse eu temo. Algumas lideranças se valem do carisma e do discurso para impor suas próprias vontades e desejos àquelas tais massas das quais falo no texto. Nesse caso, há manipulação, há imposição – ainda que subliminar. E essa é a pior, a mais perniciosa das imposições de vontades.

  9. Fantástico, professor Sérgio! Ouvi algo parecido com isso pela primeira vez ainda quando era calouro e observava palestra na UFSJ ministrada por um senhor angolano, já mais velho, sobre a guerra civil de seu país.

    Disse que, indepedente da motivação, a verdadeira revolução só aconteceria quando partisse do coração de cada um.

    Não podemos esperar que um Governo, seja qual for, faça por nós. Se queremos crescer, devemos nós mesmo fazer. Devemos olhar no espelho e ter a plena convicção de que é aquela a imagem responsável por nos fazer cresce ou estagnar.

    Concordo totalmente com você!

    Abraços do amigo @VictorGuedes.

    • Já assisti palestra de angolanos sobre sua guerra civil. Nós não sabemos o que é uma guerra de fato. Esses caras suportaram calados por 30 anos. Hoje o país é um dos que mais cresce no mundo – sei, há muito que construir por lá. Mas veja: as armas não puderam resistir ao desejo de ser livre. É a revolução do espírito!

  10. Bem bacana o post Sergio!!!
    Gostei da crítica que fez perante a falta de ação da sociedade para nosso péssimo governo!
    Poucos sabem fazer críticas, que é simples falar o que certa pessoa ou no caso “o povo” tenta fazer e não consegue!

    Um grande abraço,
    ADRIANO SHIMIZU.

    • “Péssimo governo”, Adriano? Falam de índices de aprovação na casa dos 80%

      Particularmente, não vejo mudança prática na economia (grazza Dio) desde 1993. Só vejo uma destruição de valores e instituições da democracia nacional. E isso é realmente péssimo. Uma pena que a massa não se interesse – de fato – por política a ponto de apontar esse dado.

      • Por curiosidade, ilustre, a que te referes quando afirma isso: “Só vejo uma destruição de valores e instituições da democracia nacional.” ?

        Abraços,
        Misael.

        • Olá, Misael. Não, não sou “ilustre”. Quiçá um mero desconhecido.

          Digo que a principal diferença entre o governo FHC e o governo Lula não está na economia (tão criticada pelo atual presidente quando era oposição) nem nas ações de cunho social (que foram, novamente, ampliações dos programas do governo anterior). A principal diferença está na relação com as instituições democráticas: interferências no Legislativo (leia Mensalão), no Judiciário (como no caso Batistti), na Imprensa livre (como a criação da TV Lula, da tentativa de reativar a lei da mordaça e dessa última ainda em curso da CONFECOM).

          Há também uma deterioração na visão externa do país. As questões na Am. Latina (defesa da “democracia” venezuelana; entrega de parte do patriomonio nacional – Petrobras – para a Bolívia; interferência em questões internas de países – como em Honduras, onde fornecemos nossa embaixada como palanque político; defesa das FARC – que hoje mesmo assassinaram um governador colombiano); aproximação política com países antidemocráticos, como Irã e Sudão.

          É disso que falo. Somos felizes por Lula ter sido eleito após FHC, não antes. Aquele construiu as bases que este não se cansa de tentar minar.

  11. Caro Sérgio,
    Além de descobrir o seu nome (via twitter só conhecia o slsnake =)) descobri também o seu belíssimo texto sobre as verdadeiras revoluções. Este espírito questionador é também o espírito das inovações que vc descreveu com muita propriedade. Parabéns pelo post e pelo blog.
    Qdo puder tb fique a vontade para visitar o meu: respublicano.wordpress.com
    Será uma honra “cumpanhero” rsrs

    Abcs / Res Publicano

  12. Parabéns pelo texto =)
    Gostei muito! O comodismo é um grnade mal da sociedade. Fala-se, grita, digita, mas ninguém levanta do sofá para resolver o problema. Sabemos do problema, mas a massa não frui, simplesmente aceita tudo por osmose, um triste regresso na cadeia evolutiva.
    Tenho também uma forte tendência ao inconformismo. E somos privilegiados por tal… Ah quem diga que poderia ser pior, mas é obvio que também poderia ser melhor!
    Fernando Pessoas acerto ao dizer que o governo começa com gente. Somos náos os rensponsáveis.

    Fiz um post comentando um pouco sobre a nossa sociedade, gostaria que visse e se possível comentasse… “Eleitor Otário” http://glauciafranchini.blogspot.com/2009/12/eleitor-otario.html

  13. Pingback: Trackback

  14. Como já cantava The Who em Won’t get Fooled Again: “Meet the new boss… Same as the old boss” –tiago

  15. Li o texto e li os comentários. Nossa! A cabeça gira! Resumindo o que quero falar: você se identifica com uma atitude e assume essa posição na sua vida. Haja coragem para fazê-lo. E ao mesmo tempo, é a coisa mais fácil de se fazer, porque você está convicto que é o certo.
    Mas muitos não querem pensar, nem se comprometer, nem “estudar o caso”, nem nada… para muitos, do jeito que “tá”, “tá bom”. É detestável ouvir “sempre foi/funcionou assim”. E as chamadas “zonas de conforto” que fazem a pessoa apodrecer numa inércia doentia.
    É muito bom ter as rédeas nas mãos. Você pode decidir quando agir, quando repousar, quando mudar a direção, o sentido…

    • Decidir quando agir, repousar e mudar de direção não significa ter as rédeas na mão, necessariamente. Mas significa não se deixar levar pelo vento. Significa saber que sempre se pode escolher fazer algo – ou deixar de fazer.

      O problema: existe uma coisa chamada consequencia. Tudo tem consequência: boas, ruins, esperadas ou não. E aí é que a maioria refuga: quem está preparado para assumir as consequências dos próprios atos?

  16. Snake, eu respeito muito o que você escreve, por isso estou aqui respondendo. Gosto de concordar com você, mas pontos de vista em atrito também faz parte!

    Rédeas nas mãos = livre arbítrio.
    (1.) Deus não impõe seu poder sobre a vontade e as escolhas individuais.
    (2.) Eticamente somos moralmente responsáveis pelas nossas ações.
    (3.) Cientificamente, a mente controla certas ações do corpo.
    Eu insisto que “poder escolher fazer ou não” é ter as rédeas nas mãos!

    Não há problema algum em assumir as consequências dos próprios atos. É errando que se aprende. Se você age certo, espere consequências boas. Se você age errado, espere consequências reparadoras. Acredite em um Deus justo e estará preparado para os imprevistos da vida. Acreditar em Deus faz você estar preparado para assumir as consequências dos próprios atos. É nisso que acredito. É assim que vivo: assumindo as consequências dos próprios atos. Eu existo dessa forma. Sempre.

    • Olá, Helena, receio que estamos falando das mesmas coisas com nomes diferentes.
      Acredito em Livre Arbítrio, sim. E acredito em causa e consequência: tudo que se faz, tem consequências (boas ou ruins).

      Qdo falo de ter as rédeas nas mãos ou não ter, tem a ver com controlar tudo o que acontece. E nem tudo está sob controle. Só isso, mas as nossas decisões são de cada um de nós e ponto, respondemos por elas.

      Acho que vamos ter que concordar de novo
      =P

  17. …pontos de vista em atrito faze(m) parte…

  18. É! Exatamente! Estávamos falando da mesma coisa – com nomes diferentes! E realmente: nem tudo está sob controle. Concordo plenamente e novamente!!!

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