Uma igualdade diferente


Muito se fala sobre igualdade, sobre sermos todos iguais e blá blá blá. Concordo? Em partes. Concordo que somos – ou deveríamos ser – todos iguais perante a lei, perante o Estado, perante a sociedade, como partes dela. Mas discordo quanto a essas idéias tolas de tratar os diferentes como iguais. O que quero dizer com isso? Leia com calma, pois o assunto é por demais espinhoso.

Começo com um exemplo simples, um portador de necessidades especiais que necessita de uma cadeira de rodas para sua locomoção. Somos iguais? Não! Eu posso descer as escadas do metrô, subir num ônibus, atravessar ruas.

Por Fábio Motta/AE

Ele precisa de adaptações: calçadas rebaixadas, elevadores nos metrôs. Isso me torna melhor que ele? Não! Apenas nos faz diferentes. Diferentes em como agimos, mas iguais como cidadãos. E é justamente essa igualdade que torna forçoso que o Estado rebaixe calçadas e monte elevadores: porque tanto eu quanto eles temos o mesmo direito de ir e vir, apesar de nossas diferenças. E é justo que seja assim. Justo por duas razões aparentemente conflitantes: porque somos diferentes entre nós, mas porque somos iguais perante a lei. Dessa forma, o mesmo direito que tenho eu de andar na rua, tem ele. E assim como eu exigiria que o Estado consertasse um buraco na calçada que me impede de trafegar por ela, ele tem o dever de exigir que faça guias rebaixadas para sua locomoção. Simples e cristalino.

E qual a diferença com alguns discursos que andam por aí, mais rasos que um pires? A diferença está justamente na constatação da… diferença! Não é uma igualdade cega, mas justamente a diferença que nos torna iguais. Se ignoramos as diferenças, cometemos alguns erros, pecados fatais. Ignorar a diferença entre a minha forma de locomoção e a de um cadeirante é o que faz as calçadas altas e as escadas para os metrôs. Constatar a diferença nos leva a tratamentos diferentes para pessoas diferentes, mas sempre movidos para atingir um fim comum: a igualdade perante a lei. É a constatação da diferença de condição física que criou os bancos especiais para idosos. E foi a constatação de diferenças físicas que criou a cota para negros nas faculdades? Não! Aliás, NÃO! Um retumbante não! A diferença física da cor da pele não torna alguém de fato diferente como indivíduo, que os digam os amarelos, por exemplo.  Esse papo de “dívida histórica” é desculpa de gente preguiçosa. Uma cota para estudantes de escolas públicas – a despeito de sua cor – faz muito mais sentido, pois aí há diferença: no nível de ensino que os governos proporcionam e que a iniciativa privada proporciona. Essa é uma diferença real a ser tratada. Isso é igualdade de fato: tratar as diferenças para promover igualdade, não criar diferenças para gerar desigualdades.

Mas há um discurso raso, vestido de bom moço, que anda por aí a contar moçoilas desavisadas. O tal bom mocismo já está montando um harém. Que medo!

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2 comentários sobre “Uma igualdade diferente

  1. Concordo contigo, professor!
    O Estado, que deveria garantir pelo menos aquele mínimo de oportunidades para todos, se preocupa tanto em tomar conta da vida das pessoas, do que diz respeito a cada individuo, e acaba não fazendo o seu papel básico.
    Abraços do amigo @VictorGuedes.

    • Cara, eu sou um dos mais radicais do Estado mínimo. Só deveria ter atuação em: segurança pública, política externa e econômica e infra-estrutura. E só.

      Saúde e educação, por exemplo, deveriam ser subsidiados, mas não providos pelo Estado.

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