Uma dura na ditadura


No texto Uma censura à censura, disse que o assunto havia surgido de uma conversa com um tio e que havia dois desdobramentos: censura e ditadura. Hoje falarei da ditadura.

Meu tio defendia a ditadura com um argumento simples: segurança. Ele – que havia sido carcereiro no Carandiru – disse que decidiu se aposentar quando o pessoal dos Direitos Humanos forçou a barra para colocarem um “tapetinho” para os presidiários pisarem durante as revistas, alegando que o chão frio faria mal a eles. Para ele, foi a gota d’água.

Na hora me lembrei do Suplicy indo defender os sequestradores do Abílio Diniz, em 1989. Eu tinha 10 anos, mas lembro da cena na frente do cativeiro. Acho que há uma extrapolação da violência nas cadeias, violência policial e tudo mais? Sem dúvida! Mas daí a trocar os colchões queimados a cada rebelião, ao invés de instalar bombas de sucção contra enchente, é demais. Acho que preso tem que trabalhar para pagar a “estadia”. Vida mansa, ja chega a dos políticos que viajam às nossas custas com suas modelos a tiracolo, mas volto ao ponto.

A defesa dele acerca da ditadura me assustou, mas parei pra pensar: por quê? E todo o argumento dele, na verdade, girava em torno da segurança. Logo pensei, então, que a questão não é a ditadura, mas a impressão de segurança que vem com a ditadura. Mas daí lembrei da sensação de segurança que tive ao andar pelas cidades (algumas) na Europa. Não faz sentido associar ditadura (de esquerda ou direita, whatever) a segurança. Faz sentido associar educação à segurança. Faz sentido associar crescimento econômico à segurança. Nesses casos, a segurança seria obtida por dois fatores: um povo com um nível de conhecimento cultural superior tenderá a entender melhor o outro e a respeitá-lo; ao mesmo tempo, o aumento da renda individual proporcionada pelo crescimento econômico reduziria a quantidade de necessitados cometendo crimes.

No outro extremo, falando das ditaduras de esquerda, ontem mesmo morreu um estudante na Venezuela de Chavez. O banho de sangue parece apenas ter começado: já se inicia um movimento de revolta no país pelas camadas populares, mas essa história ainda não tem fim. Falemos da ditadura russa, cubana e chinesa, com seus centenas de milhares de mortos. Não me parece que uma ditadura dessa possa falar de segurança. Tampouco o falará a ditadura militar chilena, com seus milhares. Em outras palavras: a ditadura bota terror e cria uma falsa sensação de segurança (ao mesmo tempo que cria uma situação de insegurança pessoal terrível, certo?)

Em parte, é verdade, porém, que crescimento econômico reduz a violência. Mas tem um outro fator: inteligência. Sim, inteligência no combate à criminalidade. No caso do Abílio Diniz, havia 2 canadeneses de classe média alta no meio. A menina que concebeu o plano de morte dos pais, Suzanne von Richtoffen, era rica. E o rapaz que matou a namorada em Santo André era pobre, mas não foi isso que motivou o crime, certo? O que quero dizer: quem porta arma nos morros cariocas não são os trabalhadores mais pobres, mas uma máfia bem remunerada. É preciso dinheiro para comprar uma AR-15, não? E é preciso inteligencia militar, vigilância das fronteiras (não existe isso no Brasil hoje), treinamento das polícias, uso de sistemas de informação (alguns até mesmo bem baratos hoje em dia).

No fim, não é a ditadura quem coibe o crime, é o crime que tem que ser tirado dos corações e mentes. E isso não é trabalho (só) da polícia, é das escolas… e dos pais.

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