Para ouvir


Aprendi bem cedo a esconder minhas feridas. E cedo é bem cedo mesmo, com poucos anos de idade, quando fui incumbido por meu pai de ser o homem da casa, quando ele viajou para Manaus. Costumo dizer que nós somos a nossa história, somos aquilo que vivemos, que ouvimos, que aprendemos. E, ainda que antiga, essa história moldou muito do que sou hoje, para o mal ou para o bem. Outras situações reforçaram em mim essa característica de proteger qualquer sinal de humanidade, de não me expor. E, não, por favor, não estou buscando terapia nem conselhos. Estou expondo um sentimento, não tente encostar nessa ferida.

Sim, me parece óbvio que preciso desabafar, mas não quero interpretações rasas dessas palavras. Seria muito simples dizer: Ah, essas palavras são um pedido de ajuda. Até eu consigo “analisar” assim. Mas facilito o trabalho: essas palavras são minha tentativa de não desabafar. Escolhi essas palavras, ao invés de outras, pois prefiro dizer que não estou lidando bem com um momento de minha vida a ter que expor aqui a descrição desse momento.

Admitir que não estou bem é o meu sinal de humanidade. E creio que isso é tudo o que eu preciso: admitir que, no final, também sou humano. Um humano complicado, cheio de medos e coragens, virtudes e vícios, sorrisos e dores.

E, para mim, já é o bastante.

 



Signs of Life
(Steven Curtis Chapman, tradução livre)

Base, pousei minha nave em um planeta no espaço
É aquele que dizem habitado pela raça humana
Vou dar uma volta para ver o que há por aqui
E lhe contar o que encontrarei

Confirmado: há habitantes por toda parte
E sua tecnologia está além do que já vi em qualquer outro lugar
Mas estou tentando me comunicar e eles não me ouvem
Parece que por onde passo
Não consigo encontrar a coisa mais  importante

Onde estão os sinais, os sinais de vida
O amor prova que há um coração batendo no peito
Onde estão os sinais, os sinais de vida
A compaixão e cuidado que fazem esse mundo girar
Onde estão os sinais de vida?

Há migalhas rolando no chão do meu carro
Bicicletas por onde dirijo, morcegos e bolas nos campos
E um homem de plástico sentado em meu banco
Sinais de vida por toda parte
Mas há questões girando ao redor da minha cabeça
Se é verdade que vivo em um mundo onde a esperança morreu
E se há realmente um vivo amor vivendo em mim
Como posso fazê-lo conhecido? Como deixá-lo ser visto?

Estes são os sinais, os sinais de vida
O amor que prova que há fé vivendo em mim
Estes são os sinais, os sinais de vida
A compaixão e cuidado que fazem esse mundo girar
Estes são os sinais de vida

3 comentários sobre “Para ouvir

  1. Que bom que vc se viu humano e percebeu que não está bem, acho que isso é o primeiro passo para a mudança!!! Bjs.

    • Nem sei se é o caso de mudar, mas certo que reconhecer a humanidade tem um lado bom, de admitir a fragilidade, e um lado ruim, de proteger-e ainda mais.

  2. Pingback: Espelho, Espelho meu! « Na Toca da Cobra

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