Para desabafar

É difícil ser ouvido. Ser apenas o ombro, e não o dedo que acusa. Há tempos sou bom em conversar, alguns gostam dos meus conselhos, mas demorei aprender a ouvir. Lembro bem do episódio, em 2001, quando levei meu ex-sogro ao hospital e fiquei lá fora aguardando com sua esposa. Ela começou a conversar, e a se abrir acerca de coisas que nunca me imaginei em situação para ouvir. Julguei que deveria dizer algo, aconselhar, sei lá. Julguei errado. Destruí a ponte que se formava por tentar atravessá-la antes do tempo. Mas eu não percebi isso na hora. Foi minha ex-posa quem me alertou, na verdade, quem me deu uma bronca por isso, e ela me disse exatamente isso: você precisa aprender a ouvir.

A lição não foi aprendida de imediato, mas desde então venho atentando para esse ponto. E, acreditem, é difícil ouvir. Recentemente vi isso muito claramente, ao postar um pensamento meu em meu Facebook. Falando de algo pessoal, um desabafo mais para mim do que para os outros, disse que meu maior problema era eu mesmo. Além do sentido específico da frase – e não coube explicação no momento, como não caberá agora – havia um sentido mais amplo: realmente creio que quem mais nos atrapalha somos nós mesmos. Da mesma forma que considero nós mesmos nossa maior fonte de sucesso. Em bom português: somos os maiores responsáveis pelo que acontece conosco. Simples e direto, é o que penso. Qual não foi minha surpresa, porém, ao ver que duas pessoas que conheço e que se dispõem a trabalhar ouvindo pessoas (quem lê, entenda) virem interpretar e julgar minha frase como um defeito ou qualquer coisa que o valha. Uma delas chegou ao extremo de sugerir terapia. Aliás, ambas o fizeram. Nem entrarei no mérito da terapia em si, mas na agressividade com que abordaram… um desabafo!

Assustou-me o fato de serem quem são, mas não me surpreendeu o fato em si: raros são os que, de fato, sabem ouvir. E ouvir não inclui falar. Nesses casos, ouvir fala por si só.

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Diário de Viagem 2010 – Aniversauro

Definitivamente sou um ser gregario. Não gosto de multidão, mas preciso ao menos um conhecido que converse comigo. E nem precisa ser de longa data: um recém-conhecido serve.

Depois de algumas horas de enrolação, tomei coragem, tomei um banho e tomei rumo. Eu disse rumo? Talvez rumo mesmo, eu não tenha tomado: saí a esmo pelas ruas de Barcelona. Propositalmente não pedi sugestão ao recepcionista do hotel. A estratégia foi assustadoramente simples: vou em direção às pessoas, a onde tiver mais gente indo. Sequer abri meu mapa. Não sei exatamente onde estou agora. Ou sei: há estive aqui há cerca de um ano, trazido pela Paty. Acho que sei ir embora.

Estou feliz de estar aqui, pois meu objetivo é amanhã: assistir a Espanha na final com os espanhóis em Barcelona. Objetivo traçado há um mês.

Mas não queria mesmo estar sozinho. Apesar das emoções contraditórias, no ano passado fiz dois amigos. Foi mais divertido.

Espero amanhã estar melhor.

Diário de Viagem 2010 – Baladinha e viagem pra Barcelona

Peguei a mala no hotel perto das 22:00 de ontem e combinei com o Julio de deixar a mochila no albergue em que ele está hospedado e irmos pra região dos barzinhos virar a noite, assim economizo uma diária de hotel, já que meu vôo sairia apenas às 8:00 da manhã. Não sei se foi a melhor idéia, mas valeu para ficar mais um tempo em Madrid. Vale à pena.

Após uma bela caminhada com 18 quilos nas costas, chegamos no albergue e deixei a mochila. De lá, fomos para uma baladinha rock que a gerente do albergue recomendou. Som anos 90, com destaque para Sweet Child of Mine, do Guns ‘n Roses. Mas mantenho minha opnião sobre baladas de rock clássico: são para ouvir, não para conversar, nem para dançar. Tem que gostar da música e ponto.

Na baladinha rock, com a Marta, Sara e o Julio

A música era boa, mas se estava lá com amigos, a idéia é conversar. Lá encontramos também a Marta e a Sara, amigas do Julio. Depois de mais dois ou três clássicos dos anos 80 e 90, fomos embora. Acompanhamos as meninas até o metrô e de lá fomos procurar algum lugar pra comer. Ficamos por uma kebaberia próxima, pois a região começou a ficar mais pesada. Ele já havia avisado que aquela é a região das prostitutas e travestis, mas realmente começou a ficar pesado, então optamos por voltar para a Praça de Santa Ana, onde tínhamos conhecido algumas baladinhas dois dias antes. Não contei pra vocês das baladas, né? É engraçado. Fui em quatro baladas na mesma noite. Mais de uma vez! Um recorde que não deve ser quebrado tão cedo – tipo, nas próximas décadas, hehehe.

Na Espanha, eles fazem algo que chamam de ‘movida’: entram num bar ou discoteca, ficam 20, 30 minutos, tomam um copo, um petisco, e saem em busca de outro bar. Ficam assim a noite inteira, de bar em bar, discoteca em discoteca. Notei que é comum encontrar as mesmas pessoas em diversos lugares diferentes na mesma noite. Não sou expert em baladas – nem no Brasil – mas foi interessante ver como funciona. E outra coisa: é raro ver pegação na balada. Das poucas que vi, a maioria eram estrangeiros. Não sei como é o esquema de se conhecer dos jovens espanhóis, mas achei-os mais contidos que a molecada no Brasil. Ponto pra Espanha.

Perto das 5:30, enquanto o Julio tentava xavecar uma colombiana no fim da noite (hehehe), saímos para pegar a mala. O metrô madrileno abre as 6:00 e minha intenção era pegar logo o primeiro trem para chegar no aeroporto no máximo as 7:00 e fazer o check-in sem problemas. Novamente passamos pela região das prostitutas – que ainda davam expediente a esse horário. Bêbado, o Julio mexeu com algumas e elas vieram para cima. Uma delas tentou me roubar a carteira. Fala sério, né? Sou paulistano! Essa de mão na carteira é mais velha que a Terra da Garoa. Dei um chega pra lá e arrastei o Julio pra frente, vambora!

Chegamos ao albergue, ele falando alto enquanto todos dormiam e eu querendo rir, mas me segurando. Foi uma excelente companhia, com papos cabeça, risadas, lembranças e idéias para a vida. Valeu, rapá! E pensar que anos antes, ainda na Federal, ele foi o responsável pela eliminação do time de basquete da minha sala no torneio. A vida é engraçada.

No chão do Barajas, esperando o avião e carregando a bateria do celular

Daí em diante foi tranqüilo: 18 quilos nas costas novamente, 2 baldeações no metrô, mas, em compensação, tem uma estação em cada terminal do aeroporto. Quero ver isso no Brasil! Sério!

Agora, enquanto espero o avião pra Barcelona – e carrego a bateria do meu celular – tento me segurar pra não dormir.

Darei mais notícias do lado de lá do país.

Diário de Viagem 2010 – Gracias

Estou devendo, desde a viagem do ano passado, contar para vocês como cheguei até aqui. Bem… continuarei devendo, ao menos por mais alguns dias. O que vou contar-lhes hoje não é sobre o como cheguei, mas sobre como quase não cheguei. Não acredito em destino ou pré-destino, mas acredito em escolhas, em causas e em conseqüências e, em um passado recente, eu fiz uma escolha que me impediria de estar aqui.

Sem grandes detalhes – ao menos por hora – em 2005, após a separação, superei bem as primeiras semanas, que acreditava serem as mais difíceis. Eu realmente estava bem. Realmente, eu disse? Sei… eu só percebi que “realmente” a realidade era outra quando notei – e dou graças a Deus  por ter notado – os primeiros sinais de depressão. Aos 26 anos – 8 anos após ter caído de cama por duas semanas em função de uma meningite causada por stress – peguei-me virando noites – e dias – em claro, sem sair de casa, sem comer, sem sair do quarto. Não tinha vontade de trabalhar, não tinha paixões, vazio. Essa, talvez, seja a melhor descrição: sentia-me vazio e não queria mudar isso, não sentia vontade de estar diferente. E a maioria de vocês está sabendo disso pela primeira vez. Quase todos, provavelmente. Era um jovem de menos de 30 anos, recém separado, já acometido de uma doença nervosa anos antes e, agora, com princípio de depressão. Não sou coitado e não quero ser visto assim. Sou um mané.

Mas eu tinha amigos. E amigos improváveis, impossíveis para alguns. Amigos que seriam julgados más companhias, mas que estavam junto. Não são pessoas que me deram apoio para ir em frente e tudo mais, são pessoas que me deram suporte – sim, me suportaram – para não ceder, não largar tudo. Sem melindres – e reconhecendo que outras pessoas também tiveram muito valor – esse capítulo da viagem é para quatro deles, desses amigos que conheci, literalmente, por inveja. É sério! O primeiro dos quatro, o Ale, eu conheci no ‘Jogo da Inveja’, numa comunidade do Orkut, onde, inclusive, achavam que ele era um perfil meu. Depois vieram a Mara, o Luis e a Van. São os quatro nomes deste capítulo. Eram eles quem me tiravam da toca – as vezes as 3:00 da manhã – para… almoçar. Eu me esquecia de comer. Parece impossível, mas é o que acontecia. E essas quatro pessoinhas me lembravam disso. Aliás, cabe lembrar que o nome deste blog – Na Toca da Cobra – vem desse apelido que a Mara deu ao meu apartamento na época.

Sem me estender mais – o texto já está bastante longo – essas quatro pessoas são alguns dos culpados por eu estar aqui hoje, saboreando meu almoço nesta tarde quente e um pouco nublada de Madrid.

E, enquanto escrevo estas palavras, com olhos marejados no centro da capital espanhola, meu coração se enche de gratidão por esses amigos que me impediram de sabotar meus sonhos. Para ser amigo, é preciso estar junto, e eles sabem disso. E estar junto não tem a ver com estar perto, mas com caminhar junto e suportar na hora que você é a pior companhia do mundo. E eles sabem do que estou falando. E antes que alguém julgue errado: não, não foram as pessoas mais importantes nesse processo. Mas foram as pessoas que me aturaram numa das fases mais complicadas que tive e sou grato por isso.

Ricardo Gondim disse recentemente que os amigos tornam a vida necessária. Os meus a tornaram possível.

Diário de Viagem 2010 – Desbravando Madrid II

Palácio da Justiça

Tirei o dia para caminhar pelo centro hoje. Fui sentido norte – ontem havia ido para o sul – em direção à Puerta Del Alcala – ontem vi a Puerta Del Sur. Nessa direção há mais comércios e a cidade foi, cada vez mais, me lembrando minha amada São Paulo, no Brasil. Comecei a me sentir em casa.

Bem ao lado do monumento, está a Puerta da Independência dos jardins do Buen Retiro, que é um parque grande em Madrid e que me lembrou o Ibirapuera – guardadas as devidas proporções de tamanho, com o Ibirapuera maior, e beleza, com grande vantagem para o parque espanhol.

Parque de El Retiro

Além de lindo, foi divertido ver o que fazem turistas e madrilenos no lago do parque: navegam de bote. O lago inteiro cheio de pessoas navegando em botes a remo. Fiquei tentado, mas cansado como estava de andar, acho que dormiria lá e acordaria só amanhã.

Palácio de Cristal

Mais para dentro do parque, passei pelo Palácio de Velasquez, e, por fim, pelo Palácio de Cristal (que, infelizmente, estava fechado e não rolou entrar).

A maior surpresa, porém, estava reservada para o final da tarde: encontrei o Julio Poli, que trabalhou comigo no Itau há 10 anos. E acho que fazia quase esse tempo que não o via. Fomos tomar uma sangria e ele me contou o que anda fazendo da vida: há 3 anos roda pelo mundo, trabalhando aqui e ali – Austrália, Itália, Índia, Espanha – e conhecendo o mundo.

Eu e o Julio Poli num bar em Madrid

Está na Europa há um ano e não pensa em voltar ainda. Contou-me que trabalhou lavando pratos na Austrália e estava feliz. Não sei se teria coragem, é provável que não, e bateu uma pontinha de inveja dessa vida mais “livre”. Mas qual não foi a minha surpresa quando ele me agradeceu por conseguir fazer o que está fazendo. Não entendi a princípio, e ele explicou.

Quando trabalhávamos no Itau, éramos uma equipe de 10 pessoas. Alguns de nós na época – eu, o Julia, o Renato, o Douglas e a Cel – estávamos bem cotados para promoções e tudo mais. Após 2 anos, porém, essas promoções não vinham e isso começou mesmo a incomodar. Em 3 meses, 3 dos principais membros da equipe saíram do banco para trabalhar em empresas muito reconhecidas. O Douglas foi para o JP Morgan. A Cel para a Deloitte (na época, Arthur Andersen). E eu para a Accenture (na época, Andersen Consulting). O Julio disse que a nossa saída fez o banco começar a valorizar mais o pessoal que ficou, mas, para ele, nossa saída serviu para que perdesse o medo de mudar de emprego, de tentar algo novo. E ele disse que foi assim que começou isso: depois de algum tempo trabalhando no Unibanco – após sair do Itau – ele decidiu pedir as contas, fazer as malas e se arriscar no mundo. Fiquei orgulhoso com a história e me emocionou a forma como ele me agradeceu por isso. Nada piegas e tal, mas eu realmente não esperava.

Madrid a noite

Ele acabou sendo uma ótima companhia nos dias que se seguiram na cidade que não dorme.

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Diário de Viagem – 2010 – Às margens do Tejo

Me empolguei tanto com os tais pasteizinhos que esqueci de contar de nossa visita à Torre e ao Mosteiro. Saindo da casa que vende os pastéis, passamos por um parque muito bonito, em direção ao rio Tejo, onde encontramos um monumento em homenagem às Grandes Navegações portuguesas. Muito bonito o tema e a construção forma uma caravela sob uma visão e uma cruz sobre outra. Muito fixe!

Depois, antes de seguirmos para a Torre de Belém, paramos – eu, Gaby, Paty, Gaby e Marcus – às margens do Tejo e ficamos ali, apenas ficamos ali. Um cenário memorável, companhias excelentes e o sol da tarde no verão europeu. Muito fixe sair com a malta!

Mais sobre censura prévia

O texto “Uma censura a censura” ainda rende debate. Uma das pessoas com quem gosto de discutir é o Ale Nogueira, que respondeu ao texto. Achei que vale um copy + paste do argumento dele e da minha resposta aqui. Ele em verde, eu em azul.

Ale Nogueira
Então, podemos dizer que você é a favor da censura em casa e não na programação da TV? Afinal, este “filtro” nada mais é do que a censura em menor escala, se limitando ao alcance dos filhos/ jovens sob sua responsabilidade.
Com relação à comparação do ataque nuclear para acabar com as cobras, que vieram para acabar com os ratos e etc… concordo que é uma ação extrema, mas também são necessárias algumas medidas extremas quando a situação começa a fugir do controle.
Claro que o ideal seria que, antes de chegar a este ponto extremo, fossem tomadas as providências para uma mudança radical de mentalidade, através do investimento em cultura e tudo mais. Mas isto não faz parte da realidade e, infelizmente, a programação perniciosa que contamina a maioria dos canais abertos vai continuar a assolar os nossos lares. Assim como as cobras dominariam nosso território, sem uma ação extrema para controle das mesmas.
Na verdade tudo acaba sendo reflexo do comportamento humano em geral, que não se preocupa com as consequências de seus atos, deixando sempre para a próxima geração para resolver o problema. A programação ofensiva da TV hj, é reflexo (ou uma releitura) da política de pão e circo, adotada pelos romanos na antiguidade, sendo modificada de tempos em tempos para se adequar ao tipo de população que tenciona alienar.
Claro que a discussão então iria muito além da simples censura x não censura… mas acho que faltariam caracteres para dar esta continuidade. A idéia que fica então, como sempre, é parar pra refletir até que ponto decisões extremas (inclusive a postura extremista contra a censura) são realmente efetivas, ou somente ilusórias.

Resposta de S.L. Snake
Um monte de assuntos juntos, vamos lá
1 – “Censura em menor escala”: errado. Se alguém te proíbe de publicar algo, é censura. Se te proíbe de dizer, é censura. Se te proíbe de assistir, é censura. Se você escolhe não ver, é escolha. Se um filho é responsabilidade de um pai, é o próprio pai (e mãe) quem deve escolher por ele, certo? É o princípio da menor idade.
2 – Sim, situações fora do controle demandam medidas extremas. Meu controle ainda tem pilha, posso desligar a TV e ler um livro. Não preciso de medidas extremas. Uma medida extrema proibiria o boquete da Tessália ao vivo – o que parece saudável que se bloqueie – e também bloquearia a exibição dos dólares na cueca dos acessor do José Genoino ou do panetone do Arruda – que não é saudável. Joga-se a criança fora com a água da banheira.
3 – Reflexo do comportamento: bingo! Cobras são a melhor opção para matar ratos? Sem dúvida, são comprovadamente eficazes, mas e as consequencias disso? Ou melhor é limpar as cidades (o que inclui seus subterrâneos)? Mas é mais caro e difícil, certo? Normalmente, escolhe-se o “fácil” e deixa-se a consequencia para quem vem depois.
4 – “Postura extremista contra a censura”: não acho que o “mercado” seja tão absurdamente eficiente em se auto-regular. Mas penso que o governo é ainda menos. Entre os dois, escolho outra opção: as pessoas escolhem o que querem ou não assistir. Se o BBB é um lixo, ele só está na 10ª edição porque um monte de gente assiste aquilo. Se Datena gosta de sangue, ele só está no ar porque tem gente que também gosta. Havia um jornal antigamente – Notícias Populares – que mostrava as duas coisas: sangue e mulher pelada. Literalmente: imagens de acidentes de dar nó na boca do estômago e mulheres literalmente nuas. Era motivo de piada, mas vendia. Censure a TV e o próximo passo será censurar a internet. Depois, as manifestações públicas. Aì já estaremos vivendo na Venezuela ou na China.
O próximo passo é censurar o pensamento.