Diário de Viagem 2012 – O primeiro post

Depois de um ano sem Diário de Viagem, cá estamos novamente.

O post é rápido, só pra anunciar mesmo o que vem por aí: dessa vez, a viagem tem companhia. Vou levar três alunos junto, mas já já falo disso. Por hora, é só pra avisar:

Mochila nas costas e força na peruca!

Always welcome Home, House

O amigo ama em todo o tempo; e para a angústia nasce o irmão.
Provérbios 17:17


Nessa semana a Universal Channel apresentou o último episódio da série House (ao menos em terras tupiniquins, já que estávamos com 4 semanas de defasagem em relação ao original nos EUA).
Que sou mega fã da série, não é segredo. Que me identifico (muito), não é surpresa. Junto com 24 Horas, foi a série que acompanhei inteira: em ambas, chegava da aula correndo (às terças, na primeira; às quintas na segunda) para assistir.

Também tenho uma teoria sobre a bondade de House há alguns anos, mas falo disso em outro post, outra hora. Agora, o último episódio.

Num primeiro momento, decepção, conforme relatei no Twitter ontem:

Ok, o último episódio de #House não ficou a altura da série: começou bem, perdeu fôlego e terminou…so, so…
Mas, valeu, Hugh Laurie! Trouxe a vida um dos mais complexos, integrantes e divertidos personagens.

Uma série para lembrar.

Hoje, porém, acordei pensando nisso (sim, fã tem dessas coisas) e cheguei à conclusão que aquilo que parecia “simples demais” era, na verdade, a resposta mais direta e reta, mais irônica e sagaz, ao melhor estilo House de ser

Acordei pensando exatamente isso: ele foi egoísta ao extremo por oito anos. Quando foi sua vez de ser altruísta, foi o mais extremo possível também: deu sua vida pelo amigo. Ao extremo.

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House

Ele ferrou com seu próprio futuro, com seus relacionamentos, abriu mão de seus enigmas (sua verdadeira paixão), sua identidade, para retribuir – da forma mais intensa possível – uma amizade verdadeira. Sem ressalvas, sem condições. Foi além do tradicional “dar a vida” que falamos significando “morrer por”. Ele realmente “deu” a vida “ao” amigo (e não “pelo” amigo).

E quando Wilson o questiona, dizendo que ele nunca mais poderá voltar a ser quem era, a resposta é um sonoro (na prática) “sem sua amizade, eu não seria mesmo”:

“Como você quer passar seus últimos cinco meses?” (House)

Aquela coisa sem nome

“Dentro de nós há uma coisa sem nome, essa coisa é o que somos
J. Saramago


Passamos muito tempo de nossa vida – em alguns casos, ela toda – buscando saber quem somos. Perdidos em um mundo de rótulos, ansiamos uma etiqueta que nos diga quem somos, e que diga aos outros quem somos. Muito grande a tentação de nos definirmos. Alguns se definem pela sua profissão – dr. José, prof. João, pr. Malaquias -, outros pelo time que torcem – Manuel Tricolor, Zé Fiel, Tião Verdão – , e alguns ainda em função de características físicas: Carlão, Marquinhos, Carequinha, Bolacha, Zóio, Japa. Muito grande a tentação de nos definirmos.

Mas, a despeito dos rótulos, a pergunta permanece: quem somos nós? Quem sou eu?

E eu respondo com outra questão: isso realmente importa? Buscamos nos definir em redes sociais, em currículos, em descrições de nós mesmos e auto-biografias, mas isso realmente importa? Talvez sejamos pessoas diferentes em cada momento, em cada fase, em cada lugar. Ou talvez sejamos apenas esse ser humano multifacetado. Quem nós somos realmente?

A mim, me importa outra questão: quem eu serei no momento em que precisar ser apenas eu mesmo, diante de quem realmente se importa? Desnudo de todas as máscaras e fantasias, quem eu serei?

Espelho, Espelho meu!

“Meu maior obstáculo sou eu mesmo”

Poucos entenderam quando falei essa frase a primeira vez. A questão não é psicológica ou qualquer outra coisa. Assim como muitos sofrem para saber ouvir, a maioria sofre para saber ler. E saber ler vai além das letras, mas não é pura interpretação, ou imaginação. É ler com cuidado. Não é criatividade, é atenção.

Espelho, Espelho meu

Nessa frase que falei, com um pouco mais de atenção, percebe-se que eu falo o contrário do que se lê numa primeira leitura – e rasa. É simplesmente o outro lado do espelho do que eu falei: quem nos atrapalha somos nós mesmos, assim como quem nos ajuda, quem tem que tomar as rédeas e fazer as coisas acontecerem, somos nós mesmos.

Mas não estamos acostumados e nos ver nos espelhos.

Não de verdade.

Para ouvir

Aprendi bem cedo a esconder minhas feridas. E cedo é bem cedo mesmo, com poucos anos de idade, quando fui incumbido por meu pai de ser o homem da casa, quando ele viajou para Manaus. Costumo dizer que nós somos a nossa história, somos aquilo que vivemos, que ouvimos, que aprendemos. E, ainda que antiga, essa história moldou muito do que sou hoje, para o mal ou para o bem. Outras situações reforçaram em mim essa característica de proteger qualquer sinal de humanidade, de não me expor. E, não, por favor, não estou buscando terapia nem conselhos. Estou expondo um sentimento, não tente encostar nessa ferida.

Sim, me parece óbvio que preciso desabafar, mas não quero interpretações rasas dessas palavras. Seria muito simples dizer: Ah, essas palavras são um pedido de ajuda. Até eu consigo “analisar” assim. Mas facilito o trabalho: essas palavras são minha tentativa de não desabafar. Escolhi essas palavras, ao invés de outras, pois prefiro dizer que não estou lidando bem com um momento de minha vida a ter que expor aqui a descrição desse momento.

Admitir que não estou bem é o meu sinal de humanidade. E creio que isso é tudo o que eu preciso: admitir que, no final, também sou humano. Um humano complicado, cheio de medos e coragens, virtudes e vícios, sorrisos e dores.

E, para mim, já é o bastante.

 



Signs of Life
(Steven Curtis Chapman, tradução livre)

Base, pousei minha nave em um planeta no espaço
É aquele que dizem habitado pela raça humana
Vou dar uma volta para ver o que há por aqui
E lhe contar o que encontrarei

Confirmado: há habitantes por toda parte
E sua tecnologia está além do que já vi em qualquer outro lugar
Mas estou tentando me comunicar e eles não me ouvem
Parece que por onde passo
Não consigo encontrar a coisa mais  importante

Onde estão os sinais, os sinais de vida
O amor prova que há um coração batendo no peito
Onde estão os sinais, os sinais de vida
A compaixão e cuidado que fazem esse mundo girar
Onde estão os sinais de vida?

Há migalhas rolando no chão do meu carro
Bicicletas por onde dirijo, morcegos e bolas nos campos
E um homem de plástico sentado em meu banco
Sinais de vida por toda parte
Mas há questões girando ao redor da minha cabeça
Se é verdade que vivo em um mundo onde a esperança morreu
E se há realmente um vivo amor vivendo em mim
Como posso fazê-lo conhecido? Como deixá-lo ser visto?

Estes são os sinais, os sinais de vida
O amor que prova que há fé vivendo em mim
Estes são os sinais, os sinais de vida
A compaixão e cuidado que fazem esse mundo girar
Estes são os sinais de vida

Para desabafar

É difícil ser ouvido. Ser apenas o ombro, e não o dedo que acusa. Há tempos sou bom em conversar, alguns gostam dos meus conselhos, mas demorei aprender a ouvir. Lembro bem do episódio, em 2001, quando levei meu ex-sogro ao hospital e fiquei lá fora aguardando com sua esposa. Ela começou a conversar, e a se abrir acerca de coisas que nunca me imaginei em situação para ouvir. Julguei que deveria dizer algo, aconselhar, sei lá. Julguei errado. Destruí a ponte que se formava por tentar atravessá-la antes do tempo. Mas eu não percebi isso na hora. Foi minha ex-posa quem me alertou, na verdade, quem me deu uma bronca por isso, e ela me disse exatamente isso: você precisa aprender a ouvir.

A lição não foi aprendida de imediato, mas desde então venho atentando para esse ponto. E, acreditem, é difícil ouvir. Recentemente vi isso muito claramente, ao postar um pensamento meu em meu Facebook. Falando de algo pessoal, um desabafo mais para mim do que para os outros, disse que meu maior problema era eu mesmo. Além do sentido específico da frase – e não coube explicação no momento, como não caberá agora – havia um sentido mais amplo: realmente creio que quem mais nos atrapalha somos nós mesmos. Da mesma forma que considero nós mesmos nossa maior fonte de sucesso. Em bom português: somos os maiores responsáveis pelo que acontece conosco. Simples e direto, é o que penso. Qual não foi minha surpresa, porém, ao ver que duas pessoas que conheço e que se dispõem a trabalhar ouvindo pessoas (quem lê, entenda) virem interpretar e julgar minha frase como um defeito ou qualquer coisa que o valha. Uma delas chegou ao extremo de sugerir terapia. Aliás, ambas o fizeram. Nem entrarei no mérito da terapia em si, mas na agressividade com que abordaram… um desabafo!

Assustou-me o fato de serem quem são, mas não me surpreendeu o fato em si: raros são os que, de fato, sabem ouvir. E ouvir não inclui falar. Nesses casos, ouvir fala por si só.